Já vou avisando que o post é longo e pode conter a chatice das descrições do Eca de Queirós, mas o dia foi escalafobético e “insightful” demais pra eu poder poupar os detalhes...
Saí de casa pra ir à casa da italiana, calculei a hora, o ônibus, o itinerário, e levei meu computador comigo pra ter certeza de que não me perderia com os pontos ou os mapas... Tudo ia bem... vou entrando no ônibus quando o motorista me avisa que pra TODOS os ônibus agora é preciso de bilhete... (sei que há pontos e ônibus nos quais vc só embarca com bilhete, mas o “TODOS” dele me fez me sentir a turista recém chegada...) agradeci, desci do ônibus e fui comprar o bilhete, afinal seria só fazê-lo e esperar pelo próximo ônibus, certo? Ha... Seria... se isso não fosse minha vida... Voltei pra tomar o ônibus e verificar que horário exatamente passaria o próximo, e descubro que ele não passaria. O último ônibus com aquele itinerário passava às 4:22, e era o que eu não tomara por estar sem o bilhete...
Imaginei que alguém pudesse ter apenas “esquecido” de incluir aquele número nesse ponto em específico e fui andando até o ponto “central” na cidade, ponto pelo qual eu passo todos os dias indo trabalhar, indo ao mercado, indo à faculdade... Verifiquei nesse ponto e adivinha só? Nem sinal do ônibus que eu precisaria tomar... foi então que eu tive a grande ideia de tomar o mesmo ônibus que eu tomava quando morava na homestay e ir andando de lá até a casa da italiana, seria uma caminhada maior, mas ao menos eu tinha certeza que esse ônibus passaria.
Acho que esse pensamento nem tinha acabado de se formar na minha cabeça quando olho pro lado e tenho uma visão: “o podólatra”, o “brain damage” filho da peruana em cuja casa eu fiquei em “homestay” (é mole???????), não bastava cruzar com ele pela cidade (coisa que nuuuuuuunca tinha acontecido, -or so I thought- em quase um ano desde que eu saí da casa dele), mas era encontrar com ele no momento em que eu considerava tomar o ônibus que iria pra casa dele no dia em que eu estava indo visitar a amiga da mãe dele, mas nem considerava fazer uma visita à mãe dele. Acho que ele me viu... e acho que ele viu que eu o vi... mas ele não veio falar nada, (e eu obviamente peguei meu celular e comecei a apertar botões freneticamente). Eis que chega o ônibus que vai pra casa dele, agora imaginem a cena: eu - com toda a minha ética “da metafísica desinvertida” em choque, ele - caminha pra fila do ônibus, vira de costas pra tal, e NÃO entra!!! Eu obviamente não entrei, esperando que ele o fizesse, e eu pudesse ter mais uns minutos pra pensar no que fazer sem me sentir “stalked”.Só que o maluco (literalmente) não entra no ônibus!!!
2 minutos depois, chega outro ônibus, dessa vez ele não faz a menor menção de que iria entrar, eu ligo o “Foda-se” e entro no ônibus, este parte e deixa o podólatra pra trás... “Ufa, Obstáculo 1 – vencido”
Fiz o mesmo caminho que fiz várias vezes ano passado, não foi agradável, nem fácil... As coisas estão infinitamente melhores agora, mas passar pelas mesmas ruas de dias tão negros foi foda... Me deu uma vontade de ser capaz de voltar no tempo e resgatar a Elaine que passava por aquele caminho 10 meses atrás, e dizer pra ela que ia ficar tudo bem, mesmo que por vezes não parecesse...
Desci às 17:45 e caminhei por uma meia hora debaixo de um sol infernal! Não passei protetor antes de sair de casa, era mais de 16 da tarde e eu ingenuamente acreditara que a tarde já estaria “cool”, não estava às 18:15... era um sol forte do capeta!! Mas cheguei na casa da italiana, toquei a campainha e tive a recepção mais calorosa desde que cheguei na casa da Paty na NZ: abraço apertado, um sorriso na cara e aquele brilho nos olhos, sabe? Daqueles que você não precisa de mais nada pra saber que é bem-vinda...
A Gina e a filha, Isabella, foram umas fofas, sentaram, conversaram, deram risada... e em menos de 15 minutos de conversa me levaram às lágrimas... A Gina, com uma sabedoria ímpar me conta que a “peruana” ligara pra ela hoje de manhã, mas que ela nem comentou que eu iria visitá-la... sweet... Ela também me disse que anda muito chateada com a peruana... e que eu tenho “cartão verde” pra ir à casa dela sempre que eu quiser, qualquer domingo que eu quiser pra almoçar, pra sair com a filha dela, ir ao clube, aproveitar a piscina... Em seguida me lembrou da Páscoa do ano passado (foi um dia filho da puta... eu estava desempregada, começando a me preocupar muito com as contas aqui e a peruana “sweet” tinha me oferecido ficar na casa dela sem pagar até que eu arrumasse um emprego, detalhe: eu não pedi nada... ela veio e ofereceu, dizendo que esse acordo ficaria entre nós duas só..., no domingo de Páscoa, ela me diz que conversou com o marido, repensou... e que eles “gentilmente” esperariam por um mês... depois eu que pagasse as 4 semanas que eu teria em atraso), nesse mesmo domingo eu almocei sozinha em casa, comida que tinha sobrado do sábado... Não me interpretem mal, eu não me incomodo em comer comida do dia anterior, só era um disparate que isso acontecesse no dia em que a “família” a qual, segundo todos bradavam aos quatro ventos, eu pertencia, saíra toda pra almoçar fora... E não era por isso ainda, que a Gina estava indignada, ela estava PUTA da vida mesmo porque ela, pensando em me convidar pra casa dela, perguntara pra peruana sobre o que eu faria no domingo de Páscoa ANTES do tal “Dia trágico”, e a vaca respondera que eu não ia estar em casa...
Combinamos que desse ano não passa, e que eu almoçarei na casa dela no domingo de Páscoa, que ela nem sabe ainda se irá convidar a peruana... Eu: “Pode chamá-la, não deixe de fazê-lo por mim”... E aí ela me conta a história maaaaaaaaais escalafobética filha da puta da peruana “ever” E aconteceu quando? Quando? Noite de Natal...
Atenção à história mais “hollywood às avessas”, vou ter que enumerar: A peruana convida a italiana, marido e filha (além de um outro senhor italiano gente boníssima que eu cheguei a conhecer) pra passar a Noite de Natal na casa dela...
1- A italiana se oferece pra levar lasagna, a peruana recusa, a italiana lembra que não pode comer comida apimentada, que lhe causa problemas de estômago, “No worries” diz a peruana... pra depois tacar pimenta em absolutamente toda a comida...
2- A peruana monta duas mesas, uma do lado de fora da casa, pra italianada, e outra do lado de dentro, onde ela se senta com o marido, a sobrinha, o marido da sobrinha (que “happens to be” enteado da peruana) e fica conversando... Quando a italiana ainda a avisa que não é “educado” deixar as pessoas sozinhas do lado de fora da casa e ficar na outra mesa, a peruana retruca: “Estamos conversando!” Parecia mãe dando bronca em criança, sabe? “Fica quieto menino, não vê que isso é papo de adulto?”
3- A peruana decora a mesa com “moedas de chocolate” e “ameixas”, mas recolhe-as antes que alguém coma, nas palavras divertidíssimas da italiana “Acho que eram da decoração do Natal passado, né?” Depois, pra não dizer que não tinha sobremesa, coloca um pote de sorvete na mesa “pobre”, e sai... Nada de colheres, potinhos de sobremesa, copos, nada! Depois ela volta e, percebendo que ninguém estava tomando o sorvete, recolhe-o e coloca-o de volta no freezer...
Me digam... essa mulher é ou não é uma vaca??? Meu sonho é fazer um “dicionário ilustrado” de pessoas... Preciso de uma foto dela pra colocar em “Filha da puta”, estou aceitando sugestões pra outras ilustres entradas...
A italiana me contou isso tudo muito chateada, disse que foi à missa do galo, depois voltou pra casa e comeu a lasagna que, felizmente, ela havia feito...
Disse que pergunta sempre de mim à peruana e que essa nunca disse que eu sequer ligara pra ela... Apenas o “podólatra” comentou que me viu uma vez na rua, ms que eu passei por ele sem nem falar “oi” (Deja vú?), ao que a italiana respondeu: “Ela não falou com você? I wonder why.....” Uma figura essa italiana...
Nem preciso dizer que ela não me deixou sair da casa dela antes de ter jantado, né? Fez macarrão pra todos, frango, e me serviu um café feito naquelas cafeteiras italianas que eu AMO e simplesmente não consigo encontrar pra comprar aqui... Quando eu perguntei a ela sobre onde eu poderia encontrar uma, eis que ela me dá uma de “6 xícaras” que ela tem e nunca usa!! (Pode??????) Ainda me ensina que essas cafeteiras devem ser guardadas com um pouco de pó de café no fundo pra não ficarem com cheiro estranho... Living and learning...
Na volta pra casa, resolvo ver meus e-mails pelo celular e tem um convite de alguém querendo ser meu amigo no fb. Quem? Um dos malucos do Socialist Alternative (eu já disse que esses caras são meio stalkers???) dizendo que meu celular deve estar quebrado “or something” e que ele espera ter melhor sorte tentando falar comigo pelo fb... Confesso que me deu um pouco a sensação de “Meu deeeeeeeeeeeus, eles estão por toda parte”, mas bateu mais forte a vontade de voltar a participar das reuniões... Não fiquei com vontade de mentir, though, acho que vou responder a ele que sim, que quero um pouco de ação revolucionária enquanto estou em Sydney, mas não posso me dar, financeiramente, ao luxo de contribuir com um sindicato nesse momento, ou mesmo de ir às reuniões e ajudá-los com grana toda vez que passa o balde... Se eu ainda puder participar assim, ótimo, se não “aufwiedersehen”. É o mais sincero que consigo pensar em ser com eles e comigo mesma...
Ainda no caminho de volta pra casa, falei com a Tiliana... olhei no relógio e era 20:08 aqui, 7 da matina no Brasil, ela era possivelmente a única pessoa que eu conheço acordada uma hora dessas. Poder ouvi-la... contando do Brasil, dela, da vida por lá... ainda que por tão pouco tempo faz taaaaaaaaanta diferença... Depois poder compartilhar os acontecimentos da tarde aqui com alguém capaz de entender a importância de um abraço, um sorriso e um café...
That, my friends, is happiness!
Que história incrível. Escalafobética, como não podia deixar de ser, mas com um toque de felicidade, como o título do seu post bem descreve. Com direito a café e cafeteira, hein? Para despertar mais memórias de olfato em você...
ReplyDeleteSaudades gigantes. Depois me conta como ficou a situação com os malucos comunas!