No entanto, me ocorreu que hoje faz exatamente um ano que eu cheguei em Sydney... Um ano que cheguei na "homestay" e me deparei com a ausência da Internet e a impossibilidade de me comunicar com o mundo...
Foi quando resolvi escrever um blog pela primeira vez, afinal não tinha muito mesmo que eu pudesse fazer. Claro que dois dias depois eu desisti, mas encontrei os textos daqueles dias, e resolvi postá-los aqui, na comemoração de meu primeiro aniversário de Austrália... Lá vai:
Cheguei em Sydney. “Ufa!” - deveria ter sido minha reação ao chegar na casa dos T*, após enfrentar um ônibus com duas malas meeeeeega pesadas, mais uma vizinhança com um shopping e NEM UM ponto de táxi...
Não tinha como terminar a viagem, a vontade era sentar e chamar o Chapolin... me concentrava em tentar pensar como riríamos da situação se eu estivesse com um grupo de amigos, me lembrei de a gente procurando táxi em Angra há um mês atrás... senti saudade daquele calor, da Cris se aliviando com Cataflan, do Fê sobrevivendo graças ao Fandangos Eco... Até que “tcharã” um táxi me avistou, encostou, colocou minhas malas pra dentro e lá fomos nós.
Fora o fato de que o asiático nem respondia a nada que eu dizia, fora o fato de que ele digitou o endereço para o qual íamos no GPS mas perdia todas as entradas que esse dava, fora o fato de que ele me deixou na porta da casa e zarpou antes de qualquer ser humano abrir a porta, eu cheguei. Não tinha campainha, não como eu as conheço -at least- nem sinal de vida humana lá dentro, e eu resolvi bater palma.
Alguém me ouviu, abriu o portão com o sotaque espanhol inconfundível. “Ufa!” eu deveria ter dito então... depois de horas estava em casa... “ufa”... foi talvez a única coisa que não passou pela minha cabeça dizer nos primeiros 5 minutos dentro daquela casa, nem nos 10, nem nos 15...
“Esse é seu quarto, essa outra cama não é de ninguém” (nessa hora até me ocorreu um “ufa!” sim, mesa de computador, quarto grande, armários, espelhos... Yey!), “esse é o quarto da outra moça da xquistânia perto do Hawai, ela está esperando você chegar, eu disse que estaria vindo uma brasileira... “we know Brazilian girls are very very happy” -por que será que o predicativo me pareceu um eufemismo?- “aqui é a cozinha, aqui estão os pratos” - porta que abre - “aqui os copos” -porta que abre- “aqui os talheres” -e dá-lhe porta... “você prepara seu sanduíche de manhã, pega o pão aqui, coloca aqui, junto com o presunto que está aqui, depois lava tudo porque não temos empregada.” “Toma banho assim, lava roupa assado, usa esse banheiro desse jeito.”
Não que ela tenha me surpreendido com qualquer uma daquelas informações, não foi isso... talvez tenha sido o “como”, talvez tenha sido a canseira na qual eu cheguei, talvez tenha sido minha vontade de entrar em contato com “meu povo” e dar sinal de vida. Dizer “Hey, cheguei!” pros meus pais, pra Paty. E foi ao perguntar da Internet que veio o golpe final “Internet? You don't have it... You can buy those things....” Daí eu nem estava mais ouvindo, né? Como assim?????????? Aqueles LOOOOOOOOOOOSERS da agência merecem a morte, né? A ÚNICA coisa que eu exigi é que tivesse acesso a Internet e não tem???? A N* foi bacana e me deixou usar a Internet dela rapidinho só pra eu dar sinal de vida à minha família. (Isso depois de me mostrar a área de serviço e de insistir que pra lavar uma calcinha e um sutiã eu não preciso ligar a máquina de lavar roupa...)
Acesso meus e-mail... um da Cris, em resposta àquele primeiro que eu respondi a ela. Best e-mail... worst timing... Li... vontade de choraaaaaaaaaar, não pelo Carnaval que ela bem curtira, mas pelas vidas -as minhas, as dela, pelas coisas já não compartilhadas por conta da viagem... pelo encontro com ela e o Fê dia desses via skype do apartamento dela (e eu sem Internet), pelas risadas que eu ainda consegui dar... depois mandei um e-mail pra minha mãe só avisando que eu havia chegado mesmo... nada mais. Nisso recebo um e-mail do meu irmão, perguntando de mim, avisando que mamãe havia ido dormir... Corri, respondi o e-mail enquanto N* já chegava e perguntava se eu havia conseguido acessar (meaning: Are you done?). Pensei, com uma pontinha de alívio, sobre como era bom não ver meu pai no skype hoje, a única coisa que ele sempre perguntara desde que eu saí do Brasil foi “Você está feliz?”, pela primeira vez a resposta não seria a mesma.
Tomei um banho, tomamos um café da tarde (sim, pulei o almoço mesmo), conversamos bastante (na verdade, ouvi bastante... Ô mulher que fala), ouvi coisas como “Ah sim... é bom arrumar um emprego, senão as despesas ficam muito pesadas pros pais no Brasil...” ou ainda “nossa, mas você é muito madura” “seu inglês é muito bom” (lembrando que a semana passada ela estava com duas chinesas de 13 e 14 anos, e que apesar de morar na Austrália por 18 anos, ela ainda não fala inglês direito, nenhuma das coisas chega a ser um elogio)...
Admito que eu estou chata e triste, nada parece bom... Fico no sofá um pouco... me calo, penso no que fazer... não tenho forças pra sair, achar uma lanhouse, procurar um conselho sobre comprar ou não o tal aparelho pra usar Internet, não tenho forças pra sair por aí... De repente entendo um pouco mais sobre estar do outro lado do mundo, sobre estar sozinha, sem amigos... me canso de pensar nisso, penso nas coisas todas a fazer: malas a desarrumar, CV a fazer, livros a ler, coisas a estudar, fotos pra baixar... Nenhuma dessas coisas me atrai. Conversar com a N* ajuda, resolvo ir pro quarto, “unpack”...
Leio um poema sobre amizades que está na parede do quarto, volto a pensar que se Deus existe, o filho da mãe é dono do humor mais negro “ever”. Ora dessas coloco o poema aqui, não agora, não hoje... não quero chorar...
Desfazer as malas é uma faca de dois gumes... Ocupa minha cabeça é fato, mas me faz encontrar o escorpião despedaçado do Vitor, o CD do Kid Abelha que meu irmão insistiu pra eu trazer, as cartas, o kiwi bird que a Paty me deu (e de repente entendo também porque minha viagem longa foi tão boa psicologicamente...) Chegar em Auckland, encontrar gente conhecida, ainda que saísse durante o dia, saberia que ao voltar pra casa eles estariam lá... Paty e Edu com aquele olhar acolhedor dizendo “E aí Babe... o que vc fez hoje?” e, apesar de cansados de um dia inteiro de trabalho fora e mais uma noite de tarefas domésticas, sentavam... ouviam... De repente entendo muita coisa... e me lembro também de por que motivo vim pra cá.
Só por hoje, pensei que poderia ser bom me sentir longe mesmo de tudo e de todos que eu conheço, só por hoje poderia aproveitar e ler um bom livro, poderia buscar forças para ao menos terminar de desfazer minhas malas. Mas agora? Não é de fazer nada disso que eu tenho vontade... quero arrumar um emprego (preciso da Internet), olhar os lugares que há pra serem visitados por aqui (tb preciso da net), descobrir como chegar até eles (…), ok...ok... Confesso que me tornei geek! (nunca neguei), mas nem mesmo decidir se devo ou não comprar o tal do negócio eu consigo! Afinal não posso pesquisá-lo na net, não posso ouvir conselhos de ninguém, não posso fazer “chirrin, chirrión”...
R* chega, vem conversar comigo “Oh, you have very good English!”, tá... ele pode até estar influenciado pelas palavras da esposa, mas ele é australiano, levo ele um pouco mais a sério (pouco...), trocamos algumas palavras e depois ele me chama pra jantar. Meu prato está na mesa, servido (ninguém me pergunta se eu gosto de frango, de arroz, de batata... felizmente eu gosto dessas 3 coisas), deveria dizer a eles que eles não precisam / não devem me servir? Deveria... mas não quero. Conversamos sobre Sydney, “San Paolo”, cidades grandes, violência... Eles me contam (again) sobre a sobrinha que veio pra Sydney e se casou pra conseguir o visto... Escuto, tomo suco de amarelo e depois procedo pra cozinha lavar meu prato, meus talheres...
Sento um pouco com R* na sala, “what does you father do in Brazil?” vontade de responder que ele era um cafetão... me calo, respiro (sim, eu sei... ele está só tentando ser simpático) respondo... estabelecemos uma conversa. Daí N* chega e quer ser levada pra “pray”, num certo encontro ecumênico por perto. Aliás outro assunto da mesa (mas esse foi engraçado), N* religiosa dizendo das vezes que ela rezou e coisas aconteceram... R* justificando as mesmas coisas de um ponto de vista cético (detalhe: ele é judeu!), eu me divertindo entre os dois... Até que N* pergunta “Are people in Brazil religious?” eu digo que até que sim, que meus pais o são “Are you?” (claro a pergunta escondida esse tempo todo) digo que não, ela “Oh...”
Eles saem, fico com o filho que tem “brain damage” nas palavras da N*... ele se apresenta pra mim (pela terceira vez, me lembrei da Dory), aproveita que os pais não estão e conversa um pouco mais, pede pra ver “my thongs”, fora do meu pé... faz uma massagem (ok... ok... scaaaaaary), e eu percebo que é hora de fazer o que os T* sugeriram (Listen, R*, I am busy... have to go)... Pena que ninguém avisou que não era uma tarefa fácil, até a porta do quarto ele veio comigo, ainda pegou as fotos dele no bondinho no RJ e me mostrou. Disse que poderia me levar pra ver uma praia no domingo... Só de ouvir a palavra domingo já fiquei melhor... Mas ele continuava, disse que os pais não precisavam saber (Yeah, I was scared) que ele ia me dar isso e aquilo de presente “Don't R*... You don't need to!”, e ele continuou on... and on... Entrei no quarto, fechei a porta.
“Ufa!” - pensei genuinamente pela primeira vez no dia."
And that's all...
Por que vc desistiu de fazer um blog então? O jeito que você conta as histórias é tão cativante, tão cheia de detalhes. Me deu um aperto que a gente não tava tão próximo logo antes de você ir... queria ter feito aprte das suas lembranças boas pra escapar da loucura :P
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