Ai...ai... Sabe aquela sensação de que você não devia fazer algo, mas aquele algo que a moral e os bons costumes te dizem pra fazer, e em determinado momento, já cansada de ser imoral, anti-ética e pouco apegada às pessoas, você cede e faz? Pois bem... termino o dia hoje com um "Merda... merda... merda... por que foi que eu não me ouvi?"
Talvez não devesse começar a escrever pelo fim da história (quer coisa mais anti-clímax?!), mas eu o faço aqui primeiramente pra purgar logo a raiva de mim mesma por não ter sido mais teimosa, e depois porque o meio dessa história é certamente mais engraçado do que o final...
Assim que cheguei na Austrália, passei meus dois primeiros meses numa "homestay", nunca consegui chamar os donos da casa de meus "hostparents". Primeiro porque acho que passei da idade. Segundo, e talvez ainda mais importante, porque a relação estabelecida com eles era qualquer uma menos a de pais e filhos: eles eram imaturos, burros, mãos-de-vaca (sei lá se o plural é esse...), fofoqueiros, barraqueiros e por aí vai. Foram dois meses que, certamente, ainda vão me render muitas histórias pra contar por aqui.
Hoje, pra manter o padrão e contar um fim bem contado, vou falar só do dia em que eu saí daquela casa de loucos (e isso não é força de expressão, o filho de quase 30 anos era um podólatra, "brain damaged" nas palavras "carinhosas" da própria mãe, e por inúmeras vezes era o ser com quem eu tinha as conversas mais sensatas da casa).
Eu havia organizado todas as minhas coisas e deixado-as separadas num canto pra quando eu voltasse da faculdade, era só colocar tudo no carro alugado, despedir-me e ir-me embora. Eu também tinha que pagar AUD 80,00 por conta de uma confusão feita pela agência no Brasil (história que também fica pra outro post), e o dinheiro estava em mãos pra que eu pagasse-os assim que eu chegasse. Chegando em casa, entretanto, reparei que os donos estavam com visita (o homem de roupão), peguei minha primeira mala e levei até o carro, afinal eu sabia que ainda teria mais umas boas "viagens" até pegar tudo. Lá pela segunda vez, o podólatra me viu, mas como ele estava puto da vida comigo, nem me deu boa noite, nem nada... Peguei outra mala, sacolas e levei até o carro (a conversa continuava rolando na sala, eu sabia que teria que interrompê-la assim que chegasse dessa vez, seria a "viagem" final), havia estacionado o carro estrategicamente distante da casa, não queria ninguém "curiando" se eu estava de táxi, de carro alugado, de canguru, jegue ou o que fosse. Tudo parecia bem...
Quando eu voltei à casa... acho que eles estavam prestes a chamar a polícia. Tinham encontrado meu quarto praticamente vazio, questionado o filho que disse apenas "The girl is gone", aberto e escancarado as portas da casa e saído à rua à minha procura: tudo em vão. Honestamente, encontrei todos de cabelo em pé quando eu voltei... "Pensamos que você havia ido embora" = "Tivemos certeza que você ia nos dar o golpe dos AUD 80". Paguei-os, agradeci (sei lá pelo quê!), despedi-me e fui embora. Ouvi do "tiozão" um "Não vire uma estranha" e pensei sobre quão impossível seria me tornar algo que eu sempre fui a eles... uma estranha. A menina que chega e resolve ser professora de inglês, num país em que todos falam inglês e portanto podem dar aula... a que não quer trabalhar de garçonete ou de assistente em clínica de idosos... a que se recusa a abandonar a carreira de professora pra virar enfermeira (essa sim uma profissão séria, necessária na Austrália "Por que você não troca de curso?")... eu era praticamente a Carrie do Stephen King.
E, ainda assim, 5 meses depois, num rompante que eu prefiro explicar como algo ligado à TPM, eu resolvo ligar pra essas pessoas. A bem da verdade, eu queria mesmo ligar para uma senhorinha italiana, amiga da dona da casa em que eu fiquei... essa sim, dona de um humor e de um coração maiores que o mundo... Essa achava cartaz de que estavam precisando de atendente em uma News Agency e corria pra me ligar, até me levava no lugar, depois me chamava pra casa dela, onde ela colhia o café do pé, torrava, moía e preparava pra mim naquelas cafeteiras italianas. A Gina foi a responsável pelo melhor café que eu tomei na Austrália, ela era a pessoa que ficava com pena de mim sozinha em casa no domingo de Páscoa, enquanto os meus "host parents" me deixavam comida na geladeira e saíam pra almoçar com a família.
Queria ligar pra Gina e dizer que eu estou bem, mas achei que pegava mal ligar pra ela sem falar com a dona da casa onde eu fiquei antes. Por isso liguei no celular desta, chamou e ninguém atendeu... Minutos depois recebo o retorno da ligação, voz de homem, grossa (leia-se: mal-educada): "Você ligou pra fulana, queria falar com ela?"... Eu respiro, me identifico, digo que só estou ligando pra perguntar se está tudo bem "Ah é você? Sim, sim... estamos bem. Ela tá aqui. Quer falar com ela?" e passa o telefone... Nem um "Bem, e você?" e eu já me perguntando da onde foi que eu tirei que eu tinha que ser bem educada com essas pessoas...
A dona da casa pega no telefone e não é mais "gentil" tampouco. "Perdi seu telefone, por isso não te liguei mais. Tem correspondência pra você. Passa lá em casa" Eu reajo, digo que estou bem (não que alguém tivesse perguntado), que estou trabalhando "Ah... I knew you would get it... You are very smart girl" (Vindo de quem vem, nem chega a ser um elogio). Mais um pouco sobre o que ela está fazendo, como ela está... e "Conversamos outra hora querida, preciso dar janta pro meu marido agora."
Engraçado como a gente, ou melhor, como EU idealizo as coisas. Eu sempre soube que ela é uma tremenda filha da puta, interesseira do cassete, entretanto achei mesmo que ela fosse ser capaz de ficar feliz com uma ligação inesperada vinda de mim, ainda mais com notícias boas. Mas não, os meses se passaram e, talvez porque eu ainda fosse "a estranha", a conversa não poderia demorar mais do que cinco minutos, ou talvez (e tendo a achar que esse deve ter sido O real motivo) como foram eles quem ligaram, eles não iam pagar pra eu falar da minha vida estranha, né?
Saldo final? Ela ainda foi generosa o suficiente pra dizer que a Gina sempre pergunta de mim. Ótimo! Amanhã posso ligar pra ela e finalmente conversar com a autêntica buona gente.
"Eu presto atenção no que eles dizem, mas eles não dizem nada..."
Constatei que preciso passar a vida lendo o seu blog... Não apenas para saber de ti, mas para não perder seus pensamentos mais interessantes, suas conexões mais acertadas, seu humor mais que inteligente, sua essência. Te amo muito, saudades!
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