Thursday, September 16, 2010

And I wonder...

Domingo estava passando o Masterchef Australia Junior (uma versão infantil do programa que foi o maior sucesso da televisão australiana esse ano) e um episódio me deixou pensando... Entre os primeiros 10 participantes escolhidos para o teste, dos quais apenas quatro passariam pra fase seguinte, estavam duas irmãs gêmeas.

Fiquei pensando na sacanagem que era com as meninas fazê-las passar por isso. Imagina se uma passa e a outra não? Como reagiriam os pais? E a irmã que não passa? E a que passa? Embora não me veja mãe num futuro próximo (a bem da verdade nem num distante), imaginei que aqueles pais haviam cometido um grande erro e que não deveriam ter colocado as meninas juntas na mesma competição.

Dias depois, ainda pensando sobre o assunto, entretanto, me ocorreu que a crueldade das competições está aí, dada... e que talvez poupar as duas irmãs de tal "confronto" seria não só mascarar uma característica inata do capetalismo mas também criar um trauma ainda maior nas meninas. Ocorreu-me que por vezes é justamente nessas tentativas de livrar os filhos de um trauma que os pais acabam por jogá-los diretamente nos braços de um.

Lembrei-me de quando eu tinha 8 ou 9 anos e meus primos (que tinham morado com a gente por uns 3 anos, ido embora e voltado por mais um) foram embora de vez. A situação familiar era bem complicada, minha tia era uma "drama queen" e pra evitar (mais) lágrimas e traumas, minha mãe mandou a mim e à Dani (minha melhor amiga de infância) à casa das minhas primas que ficava virando a esquina, só pra que não estivéssemos em casa na hora em que eles fossem sair.

Nós fomos (e não fosse não pra ver), chegamos lá com o "Jogo da Vida" (joguinho escroto), sentamos e começamos a jogar. O clima era péssimo, né? A gente sabia porque estava ali, minhas primas sabiam, os pais das minhas primas sabiam... devia dar pra pegar o ar com a mão naquele dia. A gente não deve nem ter chegado no primeiro "Pare" obrigatório para o casamento, quando o telefone tocou e era minha mãe avisando que eles já haviam ido. Bandeira verde, a gente podia voltar pra casa.

Eu poderia dizer que a gente voltou pra casa em silêncio naquele dia, ou que conversamos sobre o ocorrido, ou que o ignorávamos como de fato nossos pais queriam. Fato é que, quase 20 anos depois, eu não me lembro... Só sei que a gente voltou e que eles não estavam mais lá.

Alguns meses depois a gente jurava que tinha visto alguém num carro que era igual a minha prima. Passamos semanas voltando ao mesmo lugar, tentando ver o mesmo carro, as mesmas pessoas... na esperança de que ela não tivesse ido embora, mas que tivesse escondida morando com uma outra família (ai... meu Fantástico Mundo de Bob).

Não sei se a experiência teria sido melhor ou pior se a gente pudesse ter dito "Tchau" e ter visto-os saírem. Não teria sido menos doloroso, mas talvez a nossa capacidade de abstração não estivesse completamente desenvolvida ainda, e ter visualizado o fim poderia ter ajudado. A Dani e eu crescemos, aprendemos tão bem a abstrair que nunca mais falamos sobre isso.

Nunca mais vimos o mesmo carro, e os meus primos de fato estavam a mais de 2000km. Essa distância também nunca mais diminuiu... nem mesmo quando eles vinham pra uma visita.


"And all that I can see is just another lemon-tree..."


PS: Em tempo,  depois de um drama feito pelo programa e de uma "música para ficar tenso" as duas irmãs foram classificadas pra fase seguinte do Masterchef.

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