Devo começar pedindo desculpas por me aproveitar do título da peça do alemão pra dar conta de um evento pequeno, particular e socialmente desimportante. Se por um lado acho um abuso o uso que se faz de expressões como "Big Brother" num contexto completamente diferente daquele pretendido pelo autor, me vejo nessa situação em que a inversão entre a exceção e a regra se deu e que me remete (ainda que de forma "individual") à peça do Brecht...
Então, chega de digressão e, (como diria Dickens, porque hoje eu estou FFLChenta) vamos aos "Fatos, Fatos, Fatos!". Semanas atrás teve uma festa na casa do Andy, o DJ que foi ao show (d'Os Mutantes), na verdade a festa foi no sábado seguinte ao show e eu quase não fui... Mas daí a italiana que morava aqui no apartamento e que está me dando aulas topou ir comigo e nós acabamos embarcando nessa.
Antes um parênteses importantíssimo: na sexta-feira (pós show, pré festa), eu fui a um apartemento pouco acima do nosso e conheci umas pessoas:
Um inglês que veio defendendo toda uma história de carma e jurando que garçom não devia se vingar de ser mau-pago estragando a comida da classe mérdia porque ele nãoe staria cumprindo seu "carma" pra minutos depois justificar que alguém que foi sacaneada (de livre e espontânea vontade ao fazer um negócio "da China") vai ter que sacanear com outra pessoa também... Tudo isso sob o apoio e a concordância de todos os presentes claaaaaaro, que olhavam pra mim com aquele olhar condescendente...
Uma filipina lésbica (também adepta da teoria do carma) que sofre mais de teoria da conspiração do que qualquer pessoa que eu já conheci!!!! (sério, a mulher JURA que a CIA controla a vida dela, os e-mails, grampea o telefone e tudo o mais) e que me ensinou que é possível "terceirizar" a maternidade. Não, não estou falando do "dar à luz, ou dos nove meses de gravidez", barriga de aluguel é fichina pra essa mulher. Ela, num ato de generosidade e altruísmo ímpar, impediu a mãe do moleque de abortar e paga pra mulher sustentar o menino... Pode parecer maldade da minha parte não perceber a bondade em tal ato (provavelmente o seja) mas o fato de que a doida chama o menino de filho pra lá, filho pra cá por 10 minutos e depois explica que não vê o moleque nunca, mas é a mãe porque o banca me ensinou que o conceito de "outsourcing" está quebrando barreiras inimagináveis.
Uma alemã e um russo que, juntos com as duas figuras descritas anteriormente formam o maio time de fofoca já visto. Eu adoro uma fofoca, minha ética admite isso, mas o fato de eles falarem mal por horas de um maluco que mora comigo e depois receberem-no na casa como se ele fosse mega bem-vindo me deu dor de estômago mesmo...
Saí desse "get together" sem fé na humanidade, com saudade das relações que eu estabeleço com meus amigos e sem paciência pra sequer me forçar a aguentar um ambiente desse, nem pela cerveja, nem pela risada... "just not worth it..."
E foi nesse clima de "TINA" que eu fui pra festa na casa do Andy no sábado. E fui pra que provavelmente tenha sido a melhor festa na qual eu já estive. Sério mesmo. E o motivo é que a regra de todas as festas nas quais você não é o anfitrião, e na qual cada grupo de pessoas se conhece e passa a festa "catching up", não era nem exceção, simplesmente não aconteceu. Eu cheguei e uma pessoa veio perguntar quem eu era, de onde, o que eu estava fazendo e pronto... lá vai conversa por um bom tempo. Quando essa interação acabou e eu estava quase saudosa da pessoa "sociável" que eu conhecera, um outro (ou outra, nem me lembro) repetiu a dose e me provou que essa era a regra do lugar...
Não posso dizer que conheci apenas mentes brilhantes e das quais eu viraria melhor amiga no dia seguinte, não foi assim... as pessoas eram todas sociáveis, nem todas interessantíssimas, e eu não esperava que elas fossem. O que sempre me intrigou, ainda mais depois que eu conheci um cara muito muito interessante no trem por puro acaso, foi o fato de que da forma como as coisas (e a gente) estão (está) há um número infinito de pessoas muito interessantes bem aí e a gente simplesmente perde a oportunidade de encontrá-las. Eu não sou a pessoa mais sociável "ever", não puxo papo, num misto de não sei ficar enchendo linguiça com pessoas com quem não compartilho muito E se a pessoa é tão diferente assim ideologica e socialmente eu até poderia mas não vejo propósito, fato é que nunca puxo papo, mas naquela festa as pessoas ao meu redor fizeram isso com tanta constância e naturalidade que eu resolvi UMA tentativa...
Saí de perto de um grupo de meninos fofos com quem conversava e fui buscar uma cerveja, antes de chegar na geladeira, encontrei uma moça e resolvi puxar papo com ela. Dez minutos depois eu descobrira que:
Ela tem um projeto de pesquisa ambientalista que acontece na Venezuela e esteve lá em meados do ano passado;
Era Chavista de carteirinha até estar na Venezuela e sacar que o buraco é mais embaixo: "Como?" Ela estava no avião e encontrou um cara que tinha acabado de estar com o Chavez num congresso de lingerie (!!!!) (Leva o cara a sério depois dessa se você conseguir);
Entende muito de História, de fragmentação de esquerda, de sub-cultura em Sydney, dos marxistas que há por aqui...
Ela só conhecia uma pessoa na festa e era o Andy!!! (Depois dessa a gente se juntou e quase o matou juntas por nunca ter nos apresentado uma à outra, ao que o Andy responde "Dude... I didn't need... I got the party going, knew you would naturally attract").
A gente conversou por horas! E uma conversa genuína e inteligente como vinha sendo uma raridade até então...
A festa continuava a todo gás. A polícia já havia baixado três vezes (antes das 11 da noite) pedindo pra baixar o volume da música / conversa se não eles teriam que acabar com a festa. E às 11:30 eu resolvi que iria embora. Ainda era possível pegar um trem, a italiana havia voltado pra casa bem antes e, embora a festa estivesse bombando, eu não estava no clima de sleep over.
Conheci dois alemães fofos que também estavam indo embora e eles me fizeram companhia até a estação. Enquanto esperava o trem chegar, vi a Pri online no Brasil, liguei pra ela e conversamos por um tempão, demos muita risada e eu falei mais do que a boca...
Cheguei em casa ainda num clima de "Num tô Believing" que uma festa como essa é possível, menos ainda que eu consegui conhecer a Ferne, que é alguém mega interessante que entende pra caramba de América Latina e com quem eu quero mesmo manter contato. Sento-me na frente do computador e vejo um e-mail do Fernando me descrevendo o começo da viagem dele do Brasil rumo a AL, quase tive um treco!!!
Eu, que pensara taaaaaaaaaaaaanto nele enquanto conversava com a Ferne e no quanto a conversa entre aqueles dois seria uma aula de História e cultura da qual eu gostaria de poder ser só ouvinte, encontro um e-mail dele me falando da partida do Brasil. Não pude evitar, peguei o telefone e liguei pra ele na hora! Ele TINHA que saber da Ferne e do quão "increíble" era receber aquele e-mail dele naquelas circunstâncias!!
Fui dormir sabendo dar o valor certo aos meus amigos no Brasil, SEMPRE... mas um pouco menos desesperançosa quanto às pessoas daqui e começando a achar que amizades interessantes e verdadeiras podem passar a ser regra nos próximos meses...
Veremos...
Eu sabia que isso ia acontecer sooner or later... Vc atrai as coisas mais doidas e maravilhosa que há, só questão de tempo. Tenho certeza que muita coisa ainda vai acontecer de gente legal que tem por aí pelo mundão. E sabe que tem a gente aqui quando precisar =P
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